quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

As palavras falam por si...


Campos do Jordão - vista do Hotel Surya-Pan

As palavras falam por si...

lucelena maia

As palavras não escalam nosso pensamento,
elas chegam, vindas pelas mãos do vento,
endereçadas a nós que as bem acolhemos
aspirando a solicitude de quem as endereçou
por desatino, amor, amizade ou para qualquer efeito...

...Melhor não pensar em quem as enviou
para não nos acorrentarmos a sentimentos!

Palavras falam por si.... para mim e para você,
blablablás existenciais e por exaustão,
às vezes, blablablás sem qualquer emoção
outras vezes molhando-nos feito garoa,
silenciosas e demoradas em intenção.

Mas, vale dizer que nos aquecem, assim como o sol
com seus raios dourados, a tamparem-nos a visão.

Há palavras mal-endereçadas
aquelas que param no portão de casa
outras que se estilhaçam na vidraça,
ainda, as que insistem no jardim
a ornamentarem-se em meios às flores.

Há as que carregam consigo amores
e as que se afugentam de você e de mim...

Palavras falam por si...
independente de serem objetivas ou rebuscadas
vindas de doces lábios ou de um olhar solitário,
ouvidas numa rua de um simples bairro
ou na quinta avenida de Nova York...

...Não importa, palavras fazem eco por toda a parte
e nós as ouvimos porque não somos de Marte.

São João da Boa Vista/SP
jan/2010

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

2010

Texto para
Revista Atua - dez/2009
São João da Boa Vista

2010

Quando o ano de 2008 se despedia, eu me perguntava: 2009 como viveremos? Estávamos em meio a uma crise mundial, provocada pelo setor imobiliário dos Estados Unidos com proporções inimagináveis de alcance.
Embora o Brasil continue sofrendo efeitos da crise financeira e econômica internacional, conseguiu retomar a rota do crescimento.
O ano de 2009 despede-se como o ano em que o Brasil tornou-se o primeiro país latino-americano e um dos primeiros, entre todos os países, a vencer a recessão.
Espero que o ano de 2010 chegue trazendo abundância de vigor e energia; luz e alegria, também esperança e amor.
Na verdade, eu desejo que os países do mundo abracem o ano novo sem tantas promessas, definindo uma parcela maior de responsabilidade com o meio ambiente e que o G20 financie as medidas de mitigação e adaptação à mudança climática - um dos pontos cruciais da 15ª Conferência do Clima das Nações Unidas, em Copenhague, no mês de dezembro – bem como estabeleçam novo acordo para substituir o de Kyoto e, ainda, que muitos especialistas afirmem como irreversível o impacto do efeito estufa, para que o empenho seja reduzir as emissões de poluentes, o que, até o momento, não passou de declaração de intenções dos países envolvidos.
Estamos comemorando o Natal e, em breve, sem nos darmos conta, Papai Noel perderá sua morada. O Polo Norte está degelando!
Como poderemos contar aos nossos filhos, netos e bisnetos sobre o Polo Norte, a lúdica história da residência oficial de Papai Noel, aonde as cartinhas escritas pelas crianças chegam ao “bom velhinho” que, com seus ajudantes, prepara os brinquedos e, na noite de Natal, sai em seu trenó lotado, puxado pelas renas, em direção à casa de cada um que pediu brinquedo?
Nós estamos mudando essa história. Em poucos anos, não poderemos falar em Papai Noel e Polo Norte com as crianças. O sonho terá dado lugar à cruel realidade do homem.
O pensamento é uma poderosa arma, nele estão as nossas verdades, as nossas crenças, nossas angústias, nossas buscas, nossos castigos, as glórias, desejos e infinitos olhares para a vida, e também os sonhos que começam em nossa infância, quando acreditamos fielmente nas clássicas histórias infantis, em Papai Noel, no Coelho da Páscoa etc.
Mas essa fantasiosa realidade parece estar com os dias contados pelo aquecimento global e o derretimento das geleiras.
Papai Noel sem o Polo Norte, sem seu trenó puxado por renas, você consegue imaginar?
Parece inoportuno falar de conscientização climática numa época festiva em que tudo o que se pretende é confraternizar e esquecer os problemas, mas não dá para esperar mais tempo, é preciso nos corrigir e reparar nossos erros. O trabalho é grande e ainda que pareça de responsabilidade dos dirigentes dos países, eles nada conseguirão se nós não quisermos ajudar. Cada um precisa fazer a sua parte!

Que todos nós tenhamos Boas Festas e que Papai Noel não seja despejado do Polo Norte por descaso nosso.

Lucelena Maia
Acadêmica – cadeira nº13 da ALSJBV
Escritora e poeta

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

É Natal


arte de Angélica T. Almstadter

É Natal...
Com os corações aos céus elevados
Com o sorriso pela paz sublimado
A energia do universo em todos concentrada
Na certeza que nunca seremos cruxificados,
Sigamos cada passo do caminho conscientes
Não estamos livres dos pecados humanos
Imperfeitos somos, mas não somos profanos
Deus está sempre conosco...
Oferencendo Sua eterna bondade e redenção,
pois
Os filhos da terra
são todos irmãos...

Que um novo amanhã aconteça dentro de cada um de nós...

Feliz Natal
Feliz 2010
paz, saúde, amor e luz

São os sinceros votos
Lucelena Maia
Samuel
Felipe

sábado, 12 de dezembro de 2009

Natal



Natal
lucelena maia

Quantas vezes eu desejei outro dezembro:
Imaginei o mês em silêncio,
luzes apagadas para conforto da alma,
frases mudas - sem cartões versejados
anunciando hábito costumeiro.
Eu desejei renascer frente a Jesus,
sentir em meu peito Sua mão luz
a velar-me no altar da vida.
Sob júbilo e confiança
o amor, a paz, a justiça e a esperança
entregues à verdadeira confraternização;
Oferenda e bondade guardadas no abraço.
Eu pediria que fosse o Natal só um pedaço
daquilo que representa a grande saudação:
O filho de Deus presente o ano inteiro
no corpo e na alma de Seus cordeiros
como energia de quem é e deseja o bem
a quem sabiamente aceita o amém!

Feliz Natal
dez/2009

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Dia do Palhaço


imagem do google

Palhaço o que é?

lucelena maia

A maquiagem disfarça
os defeitos no rosto
um rosto sem face
face ao artista disposto...
a mostrar-se bobo
arlequim,
cômico
gracioso
saltimbanco
só para fazer rir.

Palhaço
é artista circense,
mas há quem pense
que é um tolo qualquer...

10/12/2009
São João da Boa Vista/SP

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Silêncio que seiva...


imagem do google

Silêncio que seiva...
lucelena maia

Se o vento sopra pr´o horizonte,
Levando consigo um som de encanto,
Pelas colinas e atrás dos montes,
Escuta. É a poesia chamando-te.

Se o sibilar dos lábios da natureza,
Em prolongado som, vindo co´o vento,
Desabafar dores por entre as veredas,
Escuta. É a poesia reconhecendo-te.

Se os passarinhos felizes pousarem,
Em galhos de uma árvore qualquer,
E, em coro, com a natureza cantarem,
Escuta. É a poesia a beijar-te os pés.

Se entregue a este belo cenário,
Arrefecidos olhos avivarem pra vida,
Escuta. É a voz da tua alma
A dizer-te; teu corpo agora é poesia.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Dubai - Rachaduras no paraíso


imagem do Google

Rachaduras no paraíso

-revista Piauí_33 / junho 2009-

(resumo do artigo de Johann Hari pela escritora e poeta, Lucelena Maia)



O xeque Mohammed bin Rashid Al Maktoum, o soberano de Dubai, vendeu-a ao mundo como a cidade das Mil e Uma Luzes, uma Sangri-lá do Oriente Médio protegida das tempestades de areia que assolam a região.

É abril de 2009 e alguma coisa está mudando no sorriso do xeque Mohammed. Nessa terra do Nunca edificada num extremo do mundo, as rachaduras começam a aparecer. Dubai é uma metafora viva do mundo globalizado neoliberal que pode estar desmoronando.

Entre os guindastes espalhados por toda parte, muitos estão paralisados, como que perdidos no tempo, e há inúmeros canteiros de obras inacabados, num abandono completo.

A canadense Karen Andrews chegou a Dubai quatro anos atrás. O marido tinha conseguido um bom emprego numa multinacional. Assim que o casal aterrissou no emirado, em 2005, as apreensões desapareceram. "Parecia uma Disneylândia para adultos, com o xeque Mohammed no papel de Mickey", relembra. "A vida era fantástica". Não tardou muito e Daniel, o marido de Karen, comprou dois imóveis.

Mas, pela primeira vez na vida, ele se embaralhou nas finanças. Karen começou a estranhar as confusões financeiras do marido. Passado um ano, descobriu que Daniel tinha um tumor maligno no cérebro. "Até então, eu não sabia nada a respeito das leis de Dubai, imaginei que o sistema local deveria ser parecido com o do Canadá, ou de quaquer outra democracia liberal". Ninguém lhe havia contado que em Dubai não existe o conceito falência. Quem se endividar e não tiver como pagar vai para a cadeia.

Em Dubai, quando um funcionário larga o emprego, o empregador tem o dever de comunicar o fato ao seu banco. Caso tenha dívida em aberto, todas suas contas são bloqueadas e ele fica proibido de sair do país. "De repente, nossos cartões de crédito pararam de funcionar. Fomos despejados do nosso apartamento e não tínhamos mais nada". Daniel foi preso no dia do despejo, condenado a seis meses de prisão diante de uma corte que só falava árabe, sem tradução. "Agora estou aqui, sem nada, aguardando que ele saia da prisão", explica a mulher. Karen dorme dentro de um Range Rover há meses, no estacionamento de um dos hóteis mais chiques de Dubai, graças à caridade dos funcionários bengaleses, que não tiveram coragem de expulsá-la.

O caso de Karen não é único. Por toda a cidade existem imigrados dormindo clandestinamente nas dunas de areia, no aeroporto ou no próprio carro. "É preciso entender que em Dubai nada é o que aparenta ser", resume a canadense. "Você é atraído pela idéia de um lugar moderno, mas por trás dessa fachada o que temos é uma ditadura medieval."

Trinta anos atrás, quase toda a área onde se ergue hoje o emirado de Dubai era deserta. Foi quando os ingleses bateram em retirada, a dominavam desde o século XVIII até 1971, Dubai se juntou a seis pequenos estados vizinhos e formaram a federação, os Emirados Árabes Unidos. A retirada britânica coincidiu com a descoberta de generosos lençóis de petróleo na região.

Al Maktoum decidiu fazer o deserto enriquecer. Planejou construir uma cidade que se tornasse o centro do turismo e de serviços financeiros, atraindo dinheiro e profissionais do mundo inteiro. Convidou o mundo a seu paraíso fiscal - e o mundo veio, esmagando os habitantes locais, que agora representam só 5% da população total de Dubai.

Em apenas tres décadas uma cidade inteira surgiu do nada. Um salto do século XVIII para o século XXI em apenas uma geração.

Toda as noites os milhares de peões estrangeiros que constroem Dubai são levados dos canteiros de obras para uma imensidão de concreto, em pleno deserto, distante uma hora da cidade. Ali permanecem isolados. São levados em ônibus fechados, que funcionam como estufas no calor do deserto. São cerca de 300 mil homens que moram amontoados.

Nesse local que fede a esgoto e suor e que foi o primeiro acampamento que visitei, logo fui cercado por moradores, ávidos para desabafar com quem se dispusesse a ouvi-los.

Depois de muito ouvir, indago se o grupo se arrepende de ter vindo. Todos olham para baixo. Depois de um tempo, alguém rompe o silêncio: "Sinto saudade de meu país, da minha família, da minha terra. Aqui, não dá para plantar nada. Só tem petróleo e obras."

Um cidadão inglês que trabalhou no setor de construção me disse: "Ocorrem inúmeros suicídios nos acampamentos e nas obras, mas ninguém quer tocar no assunto. Dizem que foi acidente."

Um estudo da ONG Human Rights Watch revelou que existe um ocultamento da real extensão das mortes causadas pela exposição ao calor, excesso de trabalho e os suicídios.

Na distância, a cintilante silhueta de Dubai se ergue indiferente.

O dia tem sempre a mesma luminosidade artificial, o mesmo piso brilhante, as mesmas grifes de luxo globais. Neles, Dubai se reduz à sua essência: compras e mais compras.

Como se sente o cidadão local diante da ocupação de seu país por estrangeiros? Quando abordados, as mulheres se calam e os homens se ofendem, respondendo secamente que está tudo bem. Concluo que não é prudente sair perguntando essas coisas para dubaienses.

Dubai não é apenas uma cidade vivendo além de seus recursos financeiros. O emirado vive além de seus recursos ecológicos. Dubai bebe o mar. A água dos emirados, dessalinizada em fábricas espalhadas por todo o Golfo, é a mais cara do planeta. Segundo Dr. Raouf, caso a recessão se transforme em depressão, Dubai pode ficar desabastecida. O aquecimento global piora ainda mais a situação. "Estamos construindo todas essas ilhas artificais, mas se o nível do mar subir afunda tudo..."

Na minha última noite no emirado, já a caminho do aeroporto, parei numa pizzaria perdida em meio às autoestradas. Pergunto à moça filipina do balcão se ela gosta do lugar. "Gosto", diz ela, inicialmente. "Pois eu detesto", rebato. Ela concorda e desabafa: "Demorei alguns meses para perceber que tudo aqui é falso. Tudo. As palmeiras são falsas, os contratos de trabalho são falsos, as ilhas são falsas, os sorrisos são falsos. Dubai é como uma miragem. Você acha que avistou água, mas quando chega perto vê que é só areia."



( segundo a reportagem, alguns nomes nesse artigo foram modificados)

* O artigo é bem mais extenso, mas cuidei da reportagem de Johann Hari, resumindo-a, sem furtar ao leitor entender o que é, de fato, esse paraíso, chamado Dubai. ( Lucelena Maia)

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Corredor da vida


tela- Fádua Tannús

Corredor da Vida
lucelena maia

No corredor da vida pisarei o chão
Tateando sozinha os primeiros passos
Sem pelar-me de medo e inquietação
Olharei à frente sacudindo os braços.

Será o futuro que tentarei alcançar;
As estações, para início de viagem,
E, cada uma delas, haverá de mostrar-me
A linha do tempo sem maquiagem.

A primavera florida, em esperança
É tudo que precisarei na partida.
Embarcar com fé e confiança
Para no verão não me sentir perdida.

Como as folhas que no outono caem,
Eu me deixarei, na vida, ceifar,
Amadurecida no bem e mal-me-querem
Renascerei inverno, de um difícil brotar...

Na chegada, saberão da mecenas,
Protetora da própria história
Que um dia começou pequena,
Mas grandiosamente fez a trajetória.

São João da Boa Vista/SP
19/11/2009

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Sarau Lítero-Musical



Eu declamarei: Poética - Manuel Bandeira


Poética
Manuel Bandeira

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare


— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Planar


Planar
lucelena maia

Voar, voar, experimentar a juventude,
Fustigar cada segundo de liberdade...
Num engenhoso desafio de mocidade,
Ao abrir as asas, ignora a altitude.

Do alto, olha a vida, com ousadia,
Sente-se nuvem, sol, terra e ar;
Dona da natureza, soberana a reinar,
Sobrevoa o mundo, sua alforria.

Corajosamente, vôos rasantes, tenta,
Sem temor, em livre queda se lança,
E a vaidade jamais a atormenta.

Jovem águia, testando se conhecer,
Ousa ir aos confins da esperança...
Voar, voar, subir, subir, amadurecer...

(do livro - Põe-te de pé, poeta!)