quarta-feira, 28 de julho de 2010

Linguagem genuína


Na revista Piauí de junho de 2010, chamou minha atenção uma reportagem com texto de Francisco Buarque de Hollanda - "Os dicionários de meu pai". Ele fala de sua surpresa pela nova edição do dicionário analógico de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, como se tivessem lhe revirado os baús e espalhado aos ventos seu tesouro. Tratava-se de uma terrível ( funesta, nefasta, macabra, atroz, abominável, dilacerante, miseranda) notícia.

Você entenderá do que falo ao ler o texto abaixo, porque nos convida, mesmo sem convidar, a comprar o dicionário e a encantar-se por ele, ao primeiro folhear de páginas. Isso aconteceu comigo. (lucelena maia)





Os dicionários de meu pai

Pouco antes de morrer, meu pai me chamou ao esritório e me entregou um livro de capa preta que eu nunca havia visto. Era o dicionário analógico de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo. Ficava escondido, perto dos cinco grandes volumes do dicionário Caldas Aulete, entre outros livros de consulta que papai mantinha ao alcance da mão numa estante giratória. Isso pode te servir, foi mais ou menos o que ele então me disse, no seu falar meio grunhido. Era como se ele, cansado, me passasse um bastão que de alguma forma eu deveria levar adiante. E por um bom tempo aquele livro me ajudou no acabamento de romances e letras de canções, sem falar das horas em que eu o folheava à toa; o aos dicionários, para o sérvio Milorad Pavic, autor de romances-enciclopédias, é um traço infantil no caráter de um homem adulto.

Palavra puxa palavra, e escarafunchar o dicionário analógico foi virando para mim um passatempo ( desenfado, espairecimento, entretém, solaz, recreio, filistria). O resultado é que o livro, herdado já em estado precário, começou a se esfacelar nos meus dedos. Encostei-o na estante das relíquias ao descobrir, num sebo atrás da Sala Cecília Meireles, o mesmo dicionário em encadernação de percalina. Por dentro estava em boas condições, apesar de algumas manchas amareladas, e de trazer na folha de rosto a palavra anauê, escrita a caneta-tinteiro.

Com esse livro escrevi novas canções e romances, decifrei enigmas, fechei muitas palavras cruzadas. E ao vê-lo dar sinais de fadiga, saí de sebo em sebo pelo Rio de Janeiro para me garantir um dicionário analógico de reserva. Encontrei dois, mas não me dei por satisfeito, fiquei viciado no negócio. Dei de vasculhar livrarias país afora, só em São Paulo adquiri meia dúzia de exemplares, e ainda arrematei o último à venda na Amazon.com antes que algum aventureiro o fizesse. Eu já imaginava deter o monopólio ( açambarcamento, exclusividade, hegemonia, senhorio, império) de dicionários analógicos da língua portuguesa, não fosse pelo senhor João Ubaldo Ribeiro, que ao que me consta também tem um, quiçá carcomido pelas traças (brocas, carunchos, gusanos, cupins, térmitas, cáries, lagartas-rosadas, gafanhotos, bichos-carpinteiros).

As horas mortas, eu corria pela minha prateleira repleta de livros gêmeos, escolhia um a esmo e o abria a bel-prazer. Então anotava num moleskine as palavras mais preciosas, a fim de esmerar o vocabulário com que eu embasbacaria as moças e esmagaria meus rivais.

Hoje sou surpreendido pelo anúncio desta nova edição do dicionário analógico de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo. Sinto como se invadissem minha propriedade, revirassem meus baús, esplhassem aos ventos meu tesouro. Trata-se para mim de uma terrível ( funesta, nefasta, macabra, atroz, abominável, dilacerante, miseranda) notícia.

Francisco Buarque de Hollanda

domingo, 27 de junho de 2010

Este é o meu caminho


Foto: estação de trem de S.João da Boa Vista

Este é o meu caminho


Por entre rios, ribanceiras,
Por entre florestas, campinas,
Num casebre, sou moleque descalço;
No palácio, chique rainha.
Por entre sonhos desabitados,
Finco-me à realidade, semente.
Por entre pedregulhos e chão quente,
Sou andarilho, sem medo do que virá à frente.
Sigo o meu caminho, acompanhada de momentos...
Na bagagem, levo doce saudade,
Por onde passo, deixo leves pegadas.
E sigo...
Banhada por tantas fragrâncias,
Perto ou distante da felicidade.
Como pássaro, fujo em debandada...
Depois, retorno à estrada,
Às vezes, com a alma esfolada,
Sem ter conseguido evitar os tropeços.
Este é o meu caminho...
Por entre curvas, atalhos, fins e recomeço.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Dança do vento


imagem do google

DANÇA DO VENTO
Afonso Lopes Vieira


O vento é bom bailador,
baila, baila e assobia,
baila, baila e redopia
e tudo baila em redor!

E diz às flores, bailando:
- Bailai comigo, bailai!
E elas, curvadas, arfando,
Começam, débeis, bailando,
E suas folhas tombando
Uma se esfolha, outra cai,
e o vendo as deixa, abalando,
- e lá vai!...


O vento é bom bailador,
baila, baila e assobia,
baila, baila e redopia
e tudo baila em redor!

E diz às folhas caídas:
- Bailai comigo, bailai!
No quieto chão remexidas,
as folhas, por ele erguidas,
pobres velhas ressequidas
e pendidas, como um ai,
bailam, doidas e chorando,
e o vento as deixa, abalando,
- e lá vai!...

O vento é bom bailador,
baila, baila e assobia,
baila, baila e redopia
e tudo baila em redor!

E diz às ondas que rolam:
- Bailai comigo, bailai!
E as ondas no ar se empolam,
em seus braços nus o enrolam,
e batalham,
e seus cabelos se espelham
nas mãos do vento, flutuando,
e o vento as deixa, abalando,
- e lá vai!...

O vento é bom bailador,
baila, baila e assobia,
baila, baila e redopia
e tudo baila em redor!

terça-feira, 13 de abril de 2010

Fuga Permitida


foto - Estação Ferroviária de São João da Boa Vista/SP

Fuga Permitida
lucelena maia


Pensamento, vá! Chega de aprisionar-te
a esse falso juizo de liberdade,
de que preenches sentimentos e vontades
e estás nas lacunas do meu sonhar...

Eu sei, tu ficas a velar-me o rosto,
a zanzares por minhas carências
onde o sol e a lua já não são tendência
porque tornei-me ser zangado e indisposto.

Por isso, vou manter a porta aberta
deixar-te ir de mim e de meu imaginário
dar-te liberdade e libertar-me do cenário
onde crio fatos e ações de forma incerta.

Pensamento, dou-te fuga. Vá!
E, ainda que eu o clame a ativar a fantasia
diante de minha fraqueza e verborragia,
não voltes, nem acredites no meu bê-a-bá...

abr/2010
São João da Boa Vista/SP

quarta-feira, 31 de março de 2010

P á s c o a


imagem do google

A Páscoa é uma festa cristã que celebra a ressurreição de Jesus Cristo. Depois de morrer na cruz, seu corpo foi colocado em um sepulcro, onde ali permaneceu, até sua ressurreição, quando seu espírito e seu corpo foram reunificados. É o dia santo mais importante da religião cristã, quando as pessoas vão às igrejas e participam de cerimônias religiosas.

A festa tradicional associa a imagem do coelho, um símbolo de fertilidade, e ovos pintados com cores brilhantes, representando a luz solar, dados como presentes. A origem do símbolo do coelho vem do fato de que os coelhos são notáveis por sua capacidade de reprodução. Como a Páscoa é ressurreição, é renascimento, nada melhor do que coelhos, para simbolizar a fertilidade!

sábado, 13 de março de 2010

Homenagem pelo Dia Internacional da Mulher


certificado - Biblioteca Adir Gigliotti

Divido com você, leitor, a homenagem que recebi, em 10/03/2010, da CENAPEC/ Biblioteca Adir Gigliotti, sediada em Campinas, título de Mulher Destaque, pela comemoração do Dia Internacional da Mulher, em mais um Chá & Poesia coordenado pela querida Sarah de Oliveira Passarela.

lucelena maia

terça-feira, 9 de março de 2010

Projeto São João em Vitrina


Idealização: Lucelena Maia
Realização: Academia de Letras de São João da Boa Vista
Apoio: ACE - Associação Comercial e Empresarial de SJBVista

Convidam a população sanjoanense a mostrar, por intermédio da fotografia, o que vê, sente e compreende sobre as belezas e a herança da cidade em suas vidas. A fotografia será veículo desse registro que se propõe a redescobrir nossa cidade.
45 fotografias serão selecionadas para, junto com 45 textos produzidos por membros da Academia de Letras, resultarem no projeto São João em Vitrina. Esses trabalhos serão fixados em lojas comerciais durante o mês de junho; aniversário de São João
Pretende-se a elaboração de um livro/catálogo com as 45 fotos premiadas e os textos.
Para maiores detalhes, a íntegra do regulamento encontra-se nos sites: http://www.alsjbv.com.br/ e http://www.acesaojoao.com.br/
lucelena maia
acadêmica - cadeira 13
Academia de Letras SJBVista

sábado, 6 de março de 2010

Mulheres têm sobrevoado o mundo


imagem do google

Mulheres têm sobrevoado o mundo

Falar sobre a mulher é assunto que rende muito. Sempre rendeu, seja entre homens ou elas próprias, mas há diversidade nos temas discutidos.
Eu faço parte desse mundo mágico feminino e posso dizer da infinita lista de atributos que nos “inventam” poderosas. Listam-nos convincentes, marcantes, importantes, inteligentes, envolventes, batalhadoras e determinadas. Mas, como tudo tem seu oposto, o inexpressivo termo ”sozinha” ronda-nos há algumas décadas, desde quando lavávamos panelas, íamos para o tanque, cuidávamos em tempo integral dos filhos e tricotávamos, no verdadeiro sentido da palavra. Além do mais, éramos as boazinhas, educadinhas, charmosinhas e, sem dúvida, sozinhas. No entanto, nunca abraçamos tantos adjetivos como na modernidade.
A luta feminista, do início do século XX, ajudou a mulher a projetar-se em todos os segmentos de sua vida, à duras penas, é claro, mas, hoje, não há mulher que desconheça seus direitos.
Continuamos generosas, companheiras, mães e amigas, mas nos ajustamos ao salto alto, maquiagem e roupas da moda e, claro, para sermos as independentes, fortes, intelectuais e prestigiosas tomamos às mãos um notebook e nos conectamos ao mundo, aos negócios, aos jornais, e à rede social de pessoas afins, o twitter, por exemplo. Lemos e escrevemos para um mundo virtual sobre situações reais, sem que ninguém se conheça e, normalmente, para essas pessoas do outro lado da tela, é que mulheres que optaram por serem sozinhas, dizem boa noite.
Abaixo à inércia!
Preparamo-nos para o mercado de trabalho, nos especializamos, arregaçamos as mangas e ganhamos espaço nas muitas profissões, tidas, até então, como masculinas. O salário, ainda que com dois pesos e duas medidas em relação ao do homem, não leva nosso humor à UTI. As adversidades e as injustiças são muitas, mas sabemos contorná-las com profissionalismo e criatividade.
Na política, a projeção da mulher cresce a cada nova eleição, tanto no Brasil como no mundo. Ocupamos cargos importantes e relevantes no governo, seja no legislativo, executivo ou judiciário; municipal, estadual ou federal. Muitas são, inclusive, governantes de seus países.
Por excelência e competência, mesmo sobrecarregadas de responsabilidades familiares e profissionais, sozinhas ou não, com obstáculos ou sem, as mulheres têm sobrevoado o mundo.

Lucelena Maia
Escritora e poeta
Academia de Letras de SJBV
cadeira 13 – Patrono Humberto de Campos

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

As palavras falam por si...


Campos do Jordão - vista do Hotel Surya-Pan

As palavras falam por si...

lucelena maia

As palavras não escalam nosso pensamento,
elas chegam, vindas pelas mãos do vento,
endereçadas a nós que as bem acolhemos
aspirando a solicitude de quem as endereçou
por desatino, amor, amizade ou para qualquer efeito...

...Melhor não pensar em quem as enviou
para não nos acorrentarmos a sentimentos!

Palavras falam por si.... para mim e para você,
blablablás existenciais e por exaustão,
às vezes, blablablás sem qualquer emoção
outras vezes molhando-nos feito garoa,
silenciosas e demoradas em intenção.

Mas, vale dizer que nos aquecem, assim como o sol
com seus raios dourados, a tamparem-nos a visão.

Há palavras mal-endereçadas
aquelas que param no portão de casa
outras que se estilhaçam na vidraça,
ainda, as que insistem no jardim
a ornamentarem-se em meios às flores.

Há as que carregam consigo amores
e as que se afugentam de você e de mim...

Palavras falam por si...
independente de serem objetivas ou rebuscadas
vindas de doces lábios ou de um olhar solitário,
ouvidas numa rua de um simples bairro
ou na quinta avenida de Nova York...

...Não importa, palavras fazem eco por toda a parte
e nós as ouvimos porque não somos de Marte.

São João da Boa Vista/SP
jan/2010

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

2010

Texto para
Revista Atua - dez/2009
São João da Boa Vista

2010

Quando o ano de 2008 se despedia, eu me perguntava: 2009 como viveremos? Estávamos em meio a uma crise mundial, provocada pelo setor imobiliário dos Estados Unidos com proporções inimagináveis de alcance.
Embora o Brasil continue sofrendo efeitos da crise financeira e econômica internacional, conseguiu retomar a rota do crescimento.
O ano de 2009 despede-se como o ano em que o Brasil tornou-se o primeiro país latino-americano e um dos primeiros, entre todos os países, a vencer a recessão.
Espero que o ano de 2010 chegue trazendo abundância de vigor e energia; luz e alegria, também esperança e amor.
Na verdade, eu desejo que os países do mundo abracem o ano novo sem tantas promessas, definindo uma parcela maior de responsabilidade com o meio ambiente e que o G20 financie as medidas de mitigação e adaptação à mudança climática - um dos pontos cruciais da 15ª Conferência do Clima das Nações Unidas, em Copenhague, no mês de dezembro – bem como estabeleçam novo acordo para substituir o de Kyoto e, ainda, que muitos especialistas afirmem como irreversível o impacto do efeito estufa, para que o empenho seja reduzir as emissões de poluentes, o que, até o momento, não passou de declaração de intenções dos países envolvidos.
Estamos comemorando o Natal e, em breve, sem nos darmos conta, Papai Noel perderá sua morada. O Polo Norte está degelando!
Como poderemos contar aos nossos filhos, netos e bisnetos sobre o Polo Norte, a lúdica história da residência oficial de Papai Noel, aonde as cartinhas escritas pelas crianças chegam ao “bom velhinho” que, com seus ajudantes, prepara os brinquedos e, na noite de Natal, sai em seu trenó lotado, puxado pelas renas, em direção à casa de cada um que pediu brinquedo?
Nós estamos mudando essa história. Em poucos anos, não poderemos falar em Papai Noel e Polo Norte com as crianças. O sonho terá dado lugar à cruel realidade do homem.
O pensamento é uma poderosa arma, nele estão as nossas verdades, as nossas crenças, nossas angústias, nossas buscas, nossos castigos, as glórias, desejos e infinitos olhares para a vida, e também os sonhos que começam em nossa infância, quando acreditamos fielmente nas clássicas histórias infantis, em Papai Noel, no Coelho da Páscoa etc.
Mas essa fantasiosa realidade parece estar com os dias contados pelo aquecimento global e o derretimento das geleiras.
Papai Noel sem o Polo Norte, sem seu trenó puxado por renas, você consegue imaginar?
Parece inoportuno falar de conscientização climática numa época festiva em que tudo o que se pretende é confraternizar e esquecer os problemas, mas não dá para esperar mais tempo, é preciso nos corrigir e reparar nossos erros. O trabalho é grande e ainda que pareça de responsabilidade dos dirigentes dos países, eles nada conseguirão se nós não quisermos ajudar. Cada um precisa fazer a sua parte!

Que todos nós tenhamos Boas Festas e que Papai Noel não seja despejado do Polo Norte por descaso nosso.

Lucelena Maia
Acadêmica – cadeira nº13 da ALSJBV
Escritora e poeta