quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O velho e o mar

 
Ernest Hemingway
 
(logo nas primeiras linhas deste clássico senti vontade de, mais do que lê-lo, resumir a história do humilde velho que pescava sozinho em seu barco. Espero ter conseguido passar a essência de Santiago nas minhas linhas)
Lucelena Maia

 
Noventa e cinco páginas de uma narrativa direta, com frases curtas e diálogos secos.

 
Ernest Hemingway anuncia em O velho e o mar a história de Santiago, um pescador cubano em fim de linha.  Foi escrito em 1952 e lhe rendeu o Prêmio Pulitzer. Em 1954, o Nobel da Literatura.

 
Dia após dia, Santiago sai com seu barco e volta de mãos vazias. Um velho humilde, magro e seco, com as mãos cobertas de cicatrizes. A princípio levara em sua companhia para pescar um garoto para auxiliá-lo, mas com o passar do tempo e sem que pescasse peixe algum, porque os pais do garoto acharam que ele se tornara um azarento, puseram o filho Manolin  para trabalhar em outro barco.
 
 
Mas, o garoto tinha afeição forte pelo velho pescador e o ajudava a carregar os rolos de linha, o gancho e o arpão quando regressava com a embarcação vazia. Talvez porque o velho ensinara o garoto a pescar e por isso ele o adorava.
 
 
Todo final de tarde os dois encontravam-se, carinhosos e confiantes um com o outro, em diálogo de respeito e admiração. Também de ajuda. O garoto arranjava-lhe iscas, comida e café. O velho examinava o garoto com seus olhos queimados pelo sol. O garoto gostaria de tornar a sair com o velho, mas Santiago economizava palavras dizendo-lhe não, que ele agora estava num barco de sorte.
 
 
A noite chegava e precisavam descansar para a próxima manhã, quando o velho iria acordá-lo, bem cedo, em sua casa.
 
 
O garoto ajudava Santiago a carregar os rolos de linhas, arpão e o gancho para o barco, em seguida tomavam café, depois cada um deslizava sua embarcação para a água, mas não antes de o garoto desejar a Santiago sorte. – Boa sorte, meu velho!  Boa sorte, ele devolvia.
 
 
Ainda na escuridão o velho seguia e, à medida que remava, pensava no mar com querer bem.
 
 
Nesse dia, o sol levantou-se do mar e o velho Santiago enxergou os outros barcos, lá mais para a terra. Depois o sol começou a tornar-se mais forte, as águas começaram a brilhar mais. Agora os barcos estavam muito longe.
 
 
Decidiu aventurar-se mais longe ainda, nas águas da corrente do Golfo.
 
 
Entre observar os movimentos das varas penduradas fora do barco, viu uma andorinha-do-mar, com suas enormes asas pretas. Pôs-se a remar lenta em direção ao ponto onde ela estava pairando. Um grande cardume de dourados. Os meus peixes grandes devem estar ai por perto, falou em voz alta. Adquirira o hábito de falar em voz alta quando estava sozinho, mas não sabia dizer desde quando.
 
 
A linha da popa deu um esticão e ele largou os remos. Trouxe o peixe para dentro do barco. Albacora, da família dos atuns, de pelo menos três quilos. Esse peixe lhe serviria de refeição.
 
 
Já não podia ver o verde da costa. O mar estava muito escuro  e a luz formava prismas na água.
 
 
No momento em que examinava as linhas viu uma das varas verdes dobrar-se violentamente.
 
 
Começava então uma extraordinária batalha entre o homem e o animal. Que o melhor e o mais corajoso vença, pensou o velho marinheiro, tamanha a força do peixe.
 
 
O peixe também é meu amigo – disse ele em voz alta. Nunca vi ou ouvi falar de um peixe desse tamanho. Mas eu tenho de matá-lo.
 
 
“Se o garoto estivesse aqui, podia molhar os rolos de linha”, pensou. “Se o garoto estivesse aqui. Sim, se o garoto estivesse aqui”.
 
 
O sol estava nascendo pela terceira vez desde que se fizera ao mar quando o peixe começou a  nadar em círculos. Sentia sono, sede, cansaço pelo enorme esforço que fazia. Sentira-se também, por duas vezes, estonteado e fraco.
 
 
“Nunca estive assim tão cansado em toda a minha vida”, pensou o velho.
 
 
“Trabalhe agora você, meu peixe. Eu trabalho depois”.
 
 
O peixe ia no seu terceiro circulo quando o velho o viu aparecer à tona d´água. Quase não podia acreditar no seu comprimento. “Não é possível que tenha esse tamanho todo”.
 
 
Santiago estava transpirando muito, mas não era só por causa do sol. Em cada uma das lentas voltas que o peixe dava, o velho ganhava linha e poderia ter a oportunidade de usar o arpão.
 
 
Mas nada era fácil, mais uma vez, entre muitas, o peixe tornou a retomar o equilíbrio e afastou-se.
 
 
- Peixe! – gritou-lhe o velho – Peixe, de qualquer modo você tem de morrer. Acha que precisa matar-me também?
 
 
Pôs toda a sua alma no puxão e na agonia do peixe, que veio para junto do barco. Erguendo o arpão tão alto quanto lhe era possível, cravou-o para baixo com toda força. Conseguiu espetar o peixe de lado. O peixe parecia flutuar no ar, por cima do velho. Em seguida caiu na água.
 
 
“Agora preciso preparar os laços e a corda para prendê-lo ao barco, pensou. Tenho de preparar tudo, encostá-lo ao barco, prendê-lo bem, fixar o mastro e tomar a direção para a costa”. As mãos muito machucadas, em carne viva, não o preocupavam. “Curam-se depressa com o sal da água”
 
 
Não precisava de uma bússola para lhe indicar o sudoeste. Só precisava sentir os ventos alísios e o enfunar da vela.
 
 
A embarcação navegava bastante bem. Bebeu a metade de água que lhe restava e comeu os camarões abrigados em um molho das algas amarelas do golfo que o arpão enganchara. Tentava manter-se lúcido.
 
 
Já havia decorrido uma hora quando apareceu o primeiro tubarão. Viera das profundezas porque o sangue do peixe se espalhara pelo mar. “Fora bom demais para durar” pensou o velho. “Não posso impedi-lo de nos atacar, mas talvez possa cravar o arpão na cabeça do tubarão”. Assim ele fez. O tubarão permaneceu imóvel à tona d´água e o velho fixava-o com o olhar. Abocanhou uns quinze quilos de carne. Exclamou Santiago. Mas matei o tubarão que mordeu o meu peixe.
 
 
Um homem pode ser destruído, mas nunca derrotado.
 
 
Algumas outras vezes vieram os tubarões. Ele matou a todos, mas, a cada nova investida deles perdia as ferramentas que usava para livrar-se daqueles famintos Galanos.  Não tinha ele nenhuma outra palavra que melhor exprimisse os seus sentimentos nesta situação, por isso falava em espanhol.  Ficara sem o arpão, a faca que prendera ao remo, também o remo e muito da carne do peixe.
 
 
“Era um peixe que poderia ter alimentado um homem durante todo o inverno”, pensou o velho. Gostaria que tudo isso tivesse sido um sonho. “Já devo estar bastante perto”. “Que pode você fazer agora, se eles atacarem durante a noite? Lute! Lute até morrer. Mas o que é que um homem pode fazer contra eles no escuro e sem armas?”

Vieram todos juntos e o velho só conseguia distinguir as barbatanas na água. Lançava e tornava a lançar o cajado com desespero e depois sentiu alguma coisa agarrar no cajado e levá-lo para o mar. Mas agora os tubarões atacavam o peixe todo da popa à proa. Durante a noite alguns tubarões atacaram a carcaça, mas afastaram-se ao verificar que já não lhes restava nenhuma carne.  
 
 
“Eu nunca tinha sido derrotado e não sabia como era fácil. E o que me venceu? Nada. Fui longe demais”. Não havia ninguém para ajuda-lo e por isso foi com dificuldade que arrastou o barco para terra, deixando-o a meio da praia, sem conseguir leva-lo mais longe. Foi então que conheceu como era profundo o seu cansaço.
 
 
Dormia ainda quando, pela manhã, o garoto espreitou pela porta. O garoto viu que o velho respirava. Saiu para a rua para buscar café. Durante todo o caminho não parou de chorar.
 
 
Muitos dos pescadores da aldeia estavam em volta da embarcação do velho. Um deles mediu o esqueleto com um pedaço de linha.
 
 
Manolin levou a cafeteira para a cabana de Santiago e sentou-se ao lado da cama, até ele acordar. 
 
 
- Venceram-me, Manolin – falou a custo. - Venceram-me de verdade.

 
- Ele não o venceu. O peixe, não.

 
- Não. Você tem razão. Foi depois.
 
 
Quando saiu para a rua e a caminho da aldeia, o garoto começou a chorar.
 
 
Lá em cima, na cabana, o velho estava dormindo de novo, com o rosto escondido no monte de jornais que lhe servia de almofada.
 
 
 

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