sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Pagu, sem disfarces...


imagem obtida no google

Pagu, sem disfarces...

Patrícia Rehder Galvão é de São João, de Santos, do mundo...

Dizem do jeito colorido e ao mesmo tempo dramático com que viveu essa jornalista, musa da 3ª geração do Modernismo Brasileiro, política militante, dissidente política, romancista, desenhista e poetisa. Talvez porque Pagu tenha sido, de fato, sem disfarces...

Em 2010, comemora-se 100 anos de seu nascimento. Textos e imagens suas têm estado presentes em exposições, peças de teatro, cinemas, debates, palestras pelo Brasil e exterior, com a mesma facilidade com que ela - Pagu - se fazia lembrada em vida.

Examinamos hoje, com orgulho, a intensa cronologia de Patrícia Galvão, seu jeito único de interpretar a vida, mas nem sempre foi assim. Considerada fora dos padrões da época, era extravagante por fumar na rua, usar blusas transparentes, manter cabelos bem cortados e eriçados, além de dizer palavrões.

Como militante comunista, tornou-se a primeira mulher presa no Brasil.

Ela disse: “Sonhe. Tenha pesadelos, se necessário for. Mas sonhe.”

Mais de uma vez, Patrícia Galvão foi pássaro encarcerado antes de se fazer fênix a pousar sua loquacidade em jornais, livros, traduções para o teatro e outros trabalhos literários.

Pagu, mulher corajosa, mostrou-se amolgada quando tentou suicídio, talvez buscando a verdadeira liberdade que não encontrava na travessia fascinante e natural de sua vida.

52 anos vividos com a intensidade de quem jamais conseguiria habitar a simplória vida dos comuns. Foi intuitiva, abarcadora, efusão e segredo ao mesmo tempo. Uma mulher em constante efervescência sentimental que se mantém moderna, mesmo sendo ela do século passado.
São João da Boa Vista faz parte de sua história. Ela nasceu aqui, ainda que tenha vivido boa parte em Santos e em São Paulo.

E, para finalizar, há que se registrar o que disse o ator e autor Plínio Marcos sobre Pagu: “Patrícia era um anjo anárquico que veio para nos inquietar”.
lucelena maia
São João da Boa Vista

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Travessia









Travessia
lucelena maia

Os livros que eu li
os folheio
em pensamento
vivenciando-os
na travessia
entre o fictício
e a realidade

Na prateleira eles repousam,
também a minha história
inacabada,
repleta de ruídos,
a espantar o silêncio
que o encanto causa.

Os olhos enfeitiçados,
da direita para a esquerda,
levemente valsam
na cadência da história,
a algemar a memória,
a cada página.

Folhas volitam
sem que os dedos
sejam notados,
deslocando-as
para o outro lado,
enquanto a mão direita
se deita na página,
a acariciar as personagens.

Há dias em que
a travessia
é uma ponte suspensa;
a ficção arrebata
o que a realidade dispensa.

A caminho da 21ª Bienal do Livro de São Paulo







Be-a-bá
Prateleira sem livros
desconhece letrados amigos
e fiéis companheiros.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Mais carinho - pelo meu aniversário


Pela passagem de meu aniversário



Lucelenamiga,
somos qual estrelas que volta e meia se encontram, mas a alegria é tão grande que nossos brilhos aumentam que na terra pensam que somos novas!

MUITAS FELICIDADES
e que este Ano que se inicia te traga mais sucesso,
mais encontros felizes e que te seja doce!
Beijo meu, Rivkah





Ponta dos Pés
Lucelena Maia


A música toca convidativa
Fazendo pernas agitarem
As sapatilhas em ponta,
Leves, a se expressarem
Enquanto a barra sustenta-as
Em alongamento.

Braços vão e voltam, sem parar
Com musculatura em movimento...

Coreografia perfeita, sem riscos de erro.

Pernas ganham o ar,
Braços interpretam o sentir do bailarino,
dançando, a doar seu corpo
ao que a música pretende exprimir.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Linguagem genuína


Na revista Piauí de junho de 2010, chamou minha atenção uma reportagem com texto de Francisco Buarque de Hollanda - "Os dicionários de meu pai". Ele fala de sua surpresa pela nova edição do dicionário analógico de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, como se tivessem lhe revirado os baús e espalhado aos ventos seu tesouro. Tratava-se de uma terrível ( funesta, nefasta, macabra, atroz, abominável, dilacerante, miseranda) notícia.

Você entenderá do que falo ao ler o texto abaixo, porque nos convida, mesmo sem convidar, a comprar o dicionário e a encantar-se por ele, ao primeiro folhear de páginas. Isso aconteceu comigo. (lucelena maia)





Os dicionários de meu pai

Pouco antes de morrer, meu pai me chamou ao esritório e me entregou um livro de capa preta que eu nunca havia visto. Era o dicionário analógico de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo. Ficava escondido, perto dos cinco grandes volumes do dicionário Caldas Aulete, entre outros livros de consulta que papai mantinha ao alcance da mão numa estante giratória. Isso pode te servir, foi mais ou menos o que ele então me disse, no seu falar meio grunhido. Era como se ele, cansado, me passasse um bastão que de alguma forma eu deveria levar adiante. E por um bom tempo aquele livro me ajudou no acabamento de romances e letras de canções, sem falar das horas em que eu o folheava à toa; o aos dicionários, para o sérvio Milorad Pavic, autor de romances-enciclopédias, é um traço infantil no caráter de um homem adulto.

Palavra puxa palavra, e escarafunchar o dicionário analógico foi virando para mim um passatempo ( desenfado, espairecimento, entretém, solaz, recreio, filistria). O resultado é que o livro, herdado já em estado precário, começou a se esfacelar nos meus dedos. Encostei-o na estante das relíquias ao descobrir, num sebo atrás da Sala Cecília Meireles, o mesmo dicionário em encadernação de percalina. Por dentro estava em boas condições, apesar de algumas manchas amareladas, e de trazer na folha de rosto a palavra anauê, escrita a caneta-tinteiro.

Com esse livro escrevi novas canções e romances, decifrei enigmas, fechei muitas palavras cruzadas. E ao vê-lo dar sinais de fadiga, saí de sebo em sebo pelo Rio de Janeiro para me garantir um dicionário analógico de reserva. Encontrei dois, mas não me dei por satisfeito, fiquei viciado no negócio. Dei de vasculhar livrarias país afora, só em São Paulo adquiri meia dúzia de exemplares, e ainda arrematei o último à venda na Amazon.com antes que algum aventureiro o fizesse. Eu já imaginava deter o monopólio ( açambarcamento, exclusividade, hegemonia, senhorio, império) de dicionários analógicos da língua portuguesa, não fosse pelo senhor João Ubaldo Ribeiro, que ao que me consta também tem um, quiçá carcomido pelas traças (brocas, carunchos, gusanos, cupins, térmitas, cáries, lagartas-rosadas, gafanhotos, bichos-carpinteiros).

As horas mortas, eu corria pela minha prateleira repleta de livros gêmeos, escolhia um a esmo e o abria a bel-prazer. Então anotava num moleskine as palavras mais preciosas, a fim de esmerar o vocabulário com que eu embasbacaria as moças e esmagaria meus rivais.

Hoje sou surpreendido pelo anúncio desta nova edição do dicionário analógico de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo. Sinto como se invadissem minha propriedade, revirassem meus baús, esplhassem aos ventos meu tesouro. Trata-se para mim de uma terrível ( funesta, nefasta, macabra, atroz, abominável, dilacerante, miseranda) notícia.

Francisco Buarque de Hollanda

domingo, 27 de junho de 2010

Este é o meu caminho


Foto: estação de trem de S.João da Boa Vista

Este é o meu caminho


Por entre rios, ribanceiras,
Por entre florestas, campinas,
Num casebre, sou moleque descalço;
No palácio, chique rainha.
Por entre sonhos desabitados,
Finco-me à realidade, semente.
Por entre pedregulhos e chão quente,
Sou andarilho, sem medo do que virá à frente.
Sigo o meu caminho, acompanhada de momentos...
Na bagagem, levo doce saudade,
Por onde passo, deixo leves pegadas.
E sigo...
Banhada por tantas fragrâncias,
Perto ou distante da felicidade.
Como pássaro, fujo em debandada...
Depois, retorno à estrada,
Às vezes, com a alma esfolada,
Sem ter conseguido evitar os tropeços.
Este é o meu caminho...
Por entre curvas, atalhos, fins e recomeço.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Dança do vento


imagem do google

DANÇA DO VENTO
Afonso Lopes Vieira


O vento é bom bailador,
baila, baila e assobia,
baila, baila e redopia
e tudo baila em redor!

E diz às flores, bailando:
- Bailai comigo, bailai!
E elas, curvadas, arfando,
Começam, débeis, bailando,
E suas folhas tombando
Uma se esfolha, outra cai,
e o vendo as deixa, abalando,
- e lá vai!...


O vento é bom bailador,
baila, baila e assobia,
baila, baila e redopia
e tudo baila em redor!

E diz às folhas caídas:
- Bailai comigo, bailai!
No quieto chão remexidas,
as folhas, por ele erguidas,
pobres velhas ressequidas
e pendidas, como um ai,
bailam, doidas e chorando,
e o vento as deixa, abalando,
- e lá vai!...

O vento é bom bailador,
baila, baila e assobia,
baila, baila e redopia
e tudo baila em redor!

E diz às ondas que rolam:
- Bailai comigo, bailai!
E as ondas no ar se empolam,
em seus braços nus o enrolam,
e batalham,
e seus cabelos se espelham
nas mãos do vento, flutuando,
e o vento as deixa, abalando,
- e lá vai!...

O vento é bom bailador,
baila, baila e assobia,
baila, baila e redopia
e tudo baila em redor!

terça-feira, 13 de abril de 2010

Fuga Permitida


foto - Estação Ferroviária de São João da Boa Vista/SP

Fuga Permitida
lucelena maia


Pensamento, vá! Chega de aprisionar-te
a esse falso juizo de liberdade,
de que preenches sentimentos e vontades
e estás nas lacunas do meu sonhar...

Eu sei, tu ficas a velar-me o rosto,
a zanzares por minhas carências
onde o sol e a lua já não são tendência
porque tornei-me ser zangado e indisposto.

Por isso, vou manter a porta aberta
deixar-te ir de mim e de meu imaginário
dar-te liberdade e libertar-me do cenário
onde crio fatos e ações de forma incerta.

Pensamento, dou-te fuga. Vá!
E, ainda que eu o clame a ativar a fantasia
diante de minha fraqueza e verborragia,
não voltes, nem acredites no meu bê-a-bá...

abr/2010
São João da Boa Vista/SP